quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Da cultura...

São, no total, quinze alunos… Três têm Necessidades Educativas Especiais… A verdade é que trabalhar com os outros doze não é menos fácil… Têm quase todos tantas dificuldades de aprendizagem que dei comigo, várias vezes, a ter de consultar os meus apontamentos para confirmar os nomes dos meninos com NEE… É, sim, uma turma com alunos fraquinhos… Bem sei que fica mal dizer-se que há alunos “fraquinhos”, mas é verdade: são, em termos de aproveitamento, “fraquinhos”… 
Quinze alunos com histórias que eu conheço e que eu desconheço. 
Há a Joana, que vive numa instituição e não fala com os pais. 
Há o Marco, que fugiu de casa com a mãe porque se fartavam de receber porrada. 
Há a Patrícia, que vive com a avó de 80 anos. 
Há a Sofia que trabalha ao fim-de-semana num restaurante e, quando pode, no final do dia, faz umas horas num café perto de casa. 
Há o João da ilha. Mas ora dorme na ilha, em casa da mãe, ora por aqui, em casa do pai, ou ainda em casa da avó, quando esta não se sente muito bem. 
Há o Paulo, que tem de cuidar da irmã, porque a mãe trabalha em três sítios e raramente está em casa. 
E há o colega que está chocado. - Há sempre um ou dois colegas assim. - Está chocado muitas vezes. Desta vez, está chocado porque lhes deu um trabalho sobre tolerância e os miúdos inventaram histórias, em vez de pesquisar sobre o Gandhi ou o Luther King… Aliás, eles não sabem quem é o Gandhi ou o Luther King… E então, o colega nada tolerante que dá trabalhos sobre tolerância está escandalizado com a falta de cultura destes miúdos… Oh pá… Vão desculpar-me, mas eu não consigo deixar de achar que é muita falta de cultura ficar-se escandalizado com a falta de cultura dos outros…

Relativamente às negociações...

...assumo desde já a perceção de que os sindicatos (qualquer que ele seja) não têm tarefa fácil, uma vez que independentemente do que proponham, retifiquem ou até defendam, existe e existirá sempre quem critique e não esteja satisfeito. É por estas e por outras, que o estar "de fora" é um lugar privilegiado, mas que não deve ser nunca desculpa para não se fazer ouvir ou sequer para intervir.

Tal como em outras negociações, o ruído é imenso, a confusão é grande, as interferências (como por exemplo, a das alegações de corrupção na adoção de manuais) são brutais, mas não nos devemos arredar do que realmente é relevante. E o que é relevante é mantermos alguma serenidade, ler com atenção aquilo que entretanto vai sendo negociado (que ao contrário de alguns, me parece mais positivo que negativo), intervirmos onde é possível e, quando insatisfeitos com algum sindicato, só temos mesmo é de cortar na filiação.

Como muitos sabem, defendo a graduação nas listas nacionais como critério de colocação e o respeito pelo Código de Trabalho no que a vinculações diz respeito, mas constato também (e porque não sou surdo nem cego) que tal não irá ocorrer com este Ministério da Educação e com o paradigma do "é melhor poucos que nenhuns" dos nossos sindicatos. E não, não é uma crítica, é uma constatação, sabendo de antemão que se os sindicatos batessem o pé para que o Código do Trabalho fosse cumprido (não assinando qualquer proposta "intermédia") também seriam criticados.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A pronúncia do Sul...

Pedi-lhes para escreverem uma composição. 
Tema: Rotina diária… 
- Professora, cómé que se diz “dantes”? 
- "Dantes"? "Before"… 
- "Before"???!!!
 - Diz-me a frase toda, se faz favor. 
- Atã… "Escóvo os dantes"!
[...] 
E eu, que sou do Norte, é que tenho "pronúncia"??!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

"Longe de casa" - reportagem SIC

Para aqueles que acham que a vida dos professores é repleta de regalias, o melhor mesmo será verem esta reportagem da SIC. Estou certo de que muitos se irão rever nas vidas destes nossos colegas... 

Embora o meu percurso enquanto contratado precário não tenha sido particularmente longo, identifiquei-me com muito do que vi e ouvi na reportagem. No essencial, são vidas suspensas.

Mais algumas informações relevantes relativas às negociações...

...podem ser encontradas no sítio virtual da FENPROF. Pela sua relevância, irei transcrever para aqui uma boa parte.

Assim,

"VINCULAÇÃO EXTRAORDINÁRIA DE DOCENTES

O ME alterou a sua proposta que, agora, passou a ser a seguinte: ingresso em QZP de todos os docentes com 12 ou mais anos de serviço, prestados com ou sem profissionalização, que tenham celebrado contrato, independentemente do grupo de recrutamento, em 5 dos últimos 6 anos, desde que, no presente ano letivo, se encontrem colocados em horário anual e completo.

Para a FENPROF esta proposta está longe de corresponder à necessidade que existe de limpar do sistema educativo a enorme mancha de precariedade que continua a marcar negativamente a profissão docente. O novo requisito agora apresentado, relativo ao presente ano letivo, poderá ter um impacto que, em relação à anterior proposta, pouco mais alarga a sua abrangência, podendo excluir alguns que antes estariam considerados.

Do desenvolvimento da reunião, contudo, o ME aceitou incluir em ata negocial que este será o primeiro momento de vinculação extraordinária, a qual terá desenvolvimentos nos anos de 2018 e 2019. O ME admitiu ainda considerar, para este efeito, “horário completo” aquele que tiver 20 ou mais horas. Para a FENPROF, esta não é matéria encerrada, aguardando-se uma resposta, na próxima segunda-feira, à questão do horário e também aos termos em que a progressividade deste processo terá lugar nos próximos anos.

Será igualmente importante conhecer o número de docentes que serão abrangidos. A ausência de resposta do ME ao pedido já antes formulado mereceu a crítica da Federação, comprometendo-se a enviar as informações solicitadas na  próxima segunda-feira, dia 16.

“NORMA-TRAVÃO”
A FENPROF propôs que os 4 anos exigidos não tenham de ser cumpridos no mesmo grupo de recrutamento. Assim, a vaga a abrir seria para o grupo em que o docente tivesse lecionado durante mais tempo ou, em caso de igualdade, naquele em que se encontrasse.

A FENPROF propôs ainda que as normas de vinculação a aplicar à generalidade dos docentes abranjam os de técnicas especiais, bem como os das escolas públicas de ensino artístico especializado, incluindo conservatórios.

Também em relação a estas duas questões, o ME responderá na segunda-feira, ainda que já tenha demonstrado abertura para responder positivamente.

CRITÉRIOS PARA A ABERTURA DE VAGAS NOS QUADROS DE ESCOLA E AGRUPAMENTO, JÁ NO CONCURSO A REALIZAR ESTE ANO
O ME aceitou a proposta da FENPROF de abrir vagas nos QE / QA correspondentes ao número de lugares que tenham sido ocupados, para além da respetiva dotação, por docentes de outros quadros (QZP ou mobilidade interna) e contratados, nos últimos 3 anos.

“HORÁRIOS-ZERO”: ME RECUA NA SUA PROPOSTA
O ME aceitou as propostas da FENPROF de: retomar as 6 horas como dimensão mínima do horário para o docente não ser considerado “horário-zero” (até agora, a proposta era de 8 horas); manter a possibilidade destes docentes candidatarem-se a um segundo grupo de recrutamento; permitir que o docente retorne à escola de origem no caso de, nesta, voltar a haver disponibilidade de horário; possibilitar a manutenção dos docentes em plurianualidade, incluindo os que tenham sido colocados em reserva de recrutamento.

INCLUSÃO NA 2.ª PRIORIDADE DO CONCURSO EXTERNO
O ME aceitou a integração nesta prioridade dos docentes que tenham prestado 365 dias de serviço nos últimos 6 anos. Recorda-se que a proposta inicial era de 730 dias nos últimos 5 anos e, mais recentemente, 365 dias nos últimos 4.

PERIODICIDADE DO CONCURSO
O ME não aceitou a proposta de concurso anual, apresentada pela FENPROF. Porém, admitirá, bienalmente, avaliar da necessidade de realizar o concurso interno, podendo este ter lugar, como tem acontecido, em momento intermédio da abertura quadrienal.

PRIORIDADES EM CONCURSO INTERNO E DE MOBILIDADE INTERNA
A FENPROF insistiu na necessidade de ordenar numa só prioridade os docentes dos QZP e os de QE/QA, tanto no âmbito do concurso interno, como de mobilidade interna, não hierarquizando os docentes dos quadros em função da sua natureza. Em relação a esta matéria, o ME afirmou não aceitar a proposta em relação ao concurso interno, não fechando, no entanto, essa possibilidade no âmbito da mobilidade interna.

ATA NEGOCIAL FINAL

À margem dos diplomas em negociação, mas conexos com estes, há aspetos que mereceram, mais uma vez, a insistência da FENPROF. A saber:
Regime de permutas: a ata consagrará a aprovação de uma portaria que regulará este regime que se aplicará já no próximo ano letivo;
Tempo de serviço descontado, ilegalmente, por razões de doença: na sequência das ações desenvolvidas pela FENPROF, o ME aceitou que o tempo ilegalmente descontado em concursos anteriores, por não aplicação do artigo 103.º do ECD, será considerado nos concursos futuros, já a partir deste ano, a concretizar por circular que será, em breve, emitida;
Novos grupos de recrutamento: o ME admitiu incluir na ata o compromisso de criar novos grupos de recrutamento, na sequência das propostas da FENPROF que contemplam a criação dos grupos de Língua Gestual Portuguesa, Intervenção Precoce, Teatro e Dança. A FENPROF aguarda os termos em que o compromisso será assumido, mantendo, para já, as ações que anunciou com docentes destes grupos (ver abaixo);
Redução da área geográfica dos QZP: face à proposta da FENPROF, o ME reiterou disponibilidade para rever estas áreas geográficas, reduzindo as de maior dimensão.
Definição dos conteúdos das componentes letiva e não letiva de estabelecimento: O ME admitiu incluir na ata, conforme propôs a FENPROF, o compromisso de definir com clareza o conteúdo destas duas componentes, a concretizar no âmbito de despacho de organização do próximo ano letivo."

Comparação atual versus proposta

Pelas experiências negociais passadas, podemos esperar que as versões de diplomas (concursais e de vinculação extraordinária) entregues aos sindicatos no dia 13 de janeiro de 2017, sejam as finais. É também expectável que pelo menos um sindicato (isto é, a FENPROF) requeira negociação suplementar, mas acredito que a existirem alterações, serão mesmo de "aperfeiçoamento" e não de "rotura".

Deste modo, e por tudo o que escrevi anteriormente, fica um documento que compara o diploma concursal em vigor com a proposta ministerial de 13 de janeiro.

Para acederem à mesma, cliquem na imagem abaixo.

(Fonte do documento: aqui)

As propostas ministeriais de 13 de janeiro de 2017

Como todos saberão, raramente atualizo o blogue durante o fim de semana, e creio que em pouco mais de dez anos de blogue, só o terei feito uma meia dúzia de vezes... E escrevo isto, porque hoje comemoro o quarto ano em que tomei a decisão de que a minha família mais próxima estaria sempre em primeiro lugar.

Como tal, e mesmo sabendo que foram entregues novas propostas de diploma concursal e de vinculação extraordinária, só hoje coloco aqui no blogue...

Para acederem às propostas, cliquem nas imagens abaixo.






Não vi o "sexta às 9"...

...e sinceramente não estou a pensar ver, até porque já vários me fizeram resumos do que por lá passou. Como aquilo que me chegou aos ouvidos não é uma realidade que conheço e não conheço ninguém que se sujeite a ela (ou sequer alguém que conheça alguém que se tenha sujeitado a esse tipo de "corrupção"), só posso deduzir que algo de muito errado aconteceu. 

Provavelmente terão esgotado os temas interessantes, assim como os menos interessantes e lá decidiram "arranjar" algo que poderá oscilar entre a falsa descoberta ou algo de estupidamente residual.